segunda-feira, 11 de maio de 2015

01 - ANTES DE TODOS OS SONHOS


O SILÊNCIO
O silêncio tem formas
Onde cabem mundos
Em cada pedaço seu
Milhares de sossegos
Com formas singulares
Onde prosperam sonhos desiguais
A eterna dignidade que os caracteriza
É única
Diferente das demais

A ampulheta velha e cansada
Puxa de uma cadeira para se sentar
Sossega
Aprende a respeitar o silêncio
É ele quem desenha rugas
No rosto do tempo
Dentro de um círculo de areia
Construído no cimo de dunas invisíveis

Os pés do silêncio estão cansados
E sangram, e suplicam
racharam as pedras todas ao caminhar

O silêncio tem formas
Onde cabem mundos inexistentes
De ímpar dignidade
 Concebidos para ninguém ter medo de sonhar


Naquele dia tudo aumentou de tamanho e ficou maior do que o mundo.
Carlota acordou assustada no meio do nada, no centro de uma vastidão de branco onde reinava um nevoeiro cerrado, um deserto morno de luz esbranquiçada, afastado de tudo e de todos. Uma vez mais, Carlota estava a ser vítima da sua fértil imaginação, o impensável ameaçava tomar conta dos acontecimentos e começava a virar a realidade do avesso. O pior é que estes episódios estavam a ficar cada vez mais frequentes.
Sempre que isto lhe acontecia ela ficava quieta, à espera que tudo regressasse ao normal, pois não gostava mesmo nada de sentir-se assim, tão insegura e desprotegida. Quando o primeiro desses incidentes aconteceu, Carlota apanhou um susto tremendo e deixou de conseguir raciocinar. Tentou dar ordens aos músculos mas eles não lhe obedeceram, e também perdeu noção do tempo. Ela passou a fazer parte de uma história que não controlava e onde tudo se passava à revelia da sua vontade.
Mas foi naquele dia em que tudo aumentou de tamanho e ficou maior do que o mundo, que uma coisa muito, muito estranha, acabou por lhe acontecer.
Essa é a aventura que Carlota me pediu para vos contar, e a história começa assim:
Era uma vez uma jovem chamada Ana Carlota que ficou com medo de sonhar. De cada vez que ela o fazia, acorriam aos seus sonhos pessoas estranhas vindas de terras sombrias e distantes que só a queriam atormentar. Aquilo eram tudo menos sonhos, aquilo eram pesadelos muito assustadores que ela não conseguia aguentar. De cada vez que ela sonhava, os seus sonhos tornavam-se mais reais, muito mais autênticos e bastante barulhentos. Como qualquer menina sensata e inteligente, Carlota sabia que a sua vida podia tornar-se complicada se ela não fosse capaz de adormecer, mas era isso que lhe estava a acontecer. O medo dos sonhos começou a alterar-lhe os comportamentos, coisa que ela nem imaginava ser possível.
Uma jovem rapariga não pode ter receio de dormir, isso não é nada saudável, e Carlota sabia-o melhor do que ninguém pois era uma jovem estudante de enfermagem que ambicionava abraçar a profissão da tia Josefina e da avó Bernardete, a quem tantas vezes pedia emprestada as batas para brincar quando era mais pequena.
Em casa da avó, onde os tios também viviam, havia sempre comida deliciosa em cima da mesa, e a avó nunca se esquecia de fazer a sua gelatina predileta. O tio Artur trabalhava nos correios e o avô Tomé costumava passar os dias entretido na oficina a fazer pequenos trabalhos de bricolage. A avó Bernardete já estava reformada, mas ainda era requisitada para ajudar na clínica sempre que podia.
Quando Ana Carlota os visitava, adorava fazer passeios de barco até uma linda casa que ficava na outra margem do rio onde habitualmente o avô pescava. A casa era muito grande e estava abandonada, era uma verdadeira mansão com telhados desmedidos, tão grandes e tão altos que pareciam tocar o céu. Ela sabia que a casa estava deserta pois um dia aventurou-se a passar para o lado de dentro da propriedade transpondo um pequeno portão de ferro que foi fácil de galgar. Carlota espreitou através dos vidros sujos das janelas e reparou em móveis tapados por lençóis velhos e gastos, mas ela não se importava com isso pois tinha uma verdadeira paixão por aquela casa, ao ponto de ir logo a correr para junto do rio só para a poder observar, mesmo ao de longe.
Ana Carlota gostava tanto daquela casa que começou a sonhar com ela. Num desses sonhos tornou-se dona da propriedade e dormia no grande quarto do torreão, aquele que possuía a vista mais maravilhosa para o grandioso estuário do rio. Durante três ou quatro dias seguidos não sonhou com outra coisa, e mal o dia raiava, avançava até à margem do rio para ficar entretida a olhar para a mansão, até de tardinha, quando ela tinha de regressar.
Ao chegar à quinta noite, Ana Carlota resolveu viver uma aventura. Pegou numa lanterna do avô Tomé e partiu para uma visita noturna à residência. Estava uma noite agradável, apesar de muito escura, e ficou ainda mais escura quando ela regressou a casa, já de madrugada. A avó sentiu-a chegar àquela hora tardia, mas não lhe disse nada. Aqueceu-lhe um copo de leite e cortou-lhe uma bela fatia de um magnífico bolo de mel.
Carlota não contou nada disto a ninguém, mas naquela noite a casa abandonada não estava desabitada como de costume. O grande salão encontrava-se iluminado e nele acontecia uma gloriosa festa com muitos convidados trajados a preceito. Havia música tocada ao vivo por uma pequena orquestra, para além de comida e bebida em abundância. Os convidados entretinham-se a valsar e ela ficou algo invejosa por nunca ter aprendido a dançar.
Na sexta noite, Ana Carlota atravessou, de novo, o rio até à outra margem. Dessa vez não encontrou nenhum sinal de festa na mansão abandonada. Estava tudo empoeirado e muito velho, as paredes da casa continuavam sujas, mal pintadas e a necessitar de concerto, os jardins exteriores tinham a erva alta, o telhado possuía algumas telhas partidas e a maior parte delas em muito mau estado. A propriedade e a sua grande mansão foram construídas no início do século XX e estavam necessitadas de profundas obras de restauro. A tia Josefa contou-lhe que uma família muito importante vinda do norte pensou adquirir a propriedade e os terrenos adjacentes aos herdeiros dos antigos donos, mas eles pediam uma pequena fortuna, e até hoje ninguém sabe, ao certo, se o negócio se concretizou.
Carlota passou a ter medo de sonhar.
As pessoas que tinha visto a dançar na grande mansão eram estranhas como fantasmas, e foram ter consigo com sorrisos falsos estampados nos rostos. Ao início pareciam amigáveis, mas ela depressa passou a ter outra opinião. Uma dessas mulheres visitantes roubou-lhe a lanterna do avô Tomé e só lha devolveu depois de Carlota lhe ter prometido trazer um grande cesto de flores do campo acabadas de colher. A senhora apertou-lhe as mãos com muita força, e acabou por arrastá-la para fora do salão, puxando-a ainda para mais longe, até à entrada do pequeno bosque que dominava as traseiras da propriedade. Passeou com Ana Carlota durante algum tempo, e depois levou-a até ao barco que estava atracado junto à margem do rio. Voltou a pedir-lhe o cesto de flores, com a lanterna na mão, e disse-lhe ter gostado muito de a ter conhecido e de ter conversado acerca de coisas de que não era hábito falar com mais ninguém.
Ana Carlota era livre quando sonhava.
Nos seus sonhos o que mais gostava de fazer era de conseguir vestir roupas e coisas diferentes, e tinha muito prazer quando viajava ou assistia a bonitas cerimónias, ou quando dançava, coisa que na realidade não conseguia fazer.
Mas os sonhos começaram a assustá-la naquela quinta noite. Pela primeira vez ela sentiu-se verdadeiramente ameaçada num sonho. Quando começou a remar de regresso a casa, tudo o conhecia começou a aumentar de tamanho e a ficar maior do que o mundo. O rio e a casa e o céu e os pássaros noturnos, e os remos e a pequena embarcação do avô Tomé cresceram tanto, mas tanto, que ela quase morreu de susto.
Aquilo foi o sonho mais estranho que alguma vez lhe tinha acontecido. A mansão transformou-se num castelo gigantesco protegido por grandes labirintos feitos de sebes espinhosas e guardado por fantasmas paladinos. Um vento ciclónico chegou no exato instante em que tudo cresceu, e até o seu quarto favorito passou a ser um alto e escuro torreão iluminado por relâmpagos e fustigado por chuvas torrenciais. Demorou uma pequena eternidade a atravessar o rio onde o musgo e a relva começavam a prosperar. O barco foi devorado por um tsunami de verde, a casa foi engolida por um maremoto de musgo e o torreão foi atacado por um imenso tapete de relva que rapidamente o cercou e engoliu.
Ana Carlota acordou, e sentiu-se tão sozinha. Desceu as escadas do quarto até à cozinha da casa da avó Bernardete, e a chuva intensa que não parava, e ela tropeçou, e quase tombou, mas não caiu. Ficou exausta nessa noite, febril, por causa do sonho. Atravessou o rio descalça, por cima do musgo e da relva que ali nasceram, até o seu lado da margem. Encontrou a avó à sua espera, sentada na cozinha, com uma bela fatia de bolo de mel e uma chávena de leite morno.
Carlota costumava ter sonhos simpáticos onde dias bonitos de primavera podiam durar semanas, e onde as amizades persistiam a vida inteira, uma vida que durava o tempo desses sonhos. Eram filmes que tinha guardados dentro de si e que assim lhe contavam as histórias, ora de maneira rápida, ora muito vagarosamente.
O avô Tomé gostava de levar as netas a pescar. A prima Emília usava uns óculos redondos muito engraçados. Nenhum deles conseguiu pescar um único peixe naquele dia, mas Ana Carlota não se importava. Ela achava aqueles momentos muito divertidos. Era tão bom estarem os três juntos a fazer passar o tempo devagar, e o rio parecia que crescia de cada vez que iam à pesca, mas isso era uma coisa difícil de explicar. As suas águas limpas entretinham-se a cantar canções de embalar. Outras vezes, contavam-lhes histórias de fazer chorar acerca das vidas das pessoas que habitavam todas as casas e mansões que se estendiam ao longo de cada uma das suas margens.
Naquela manhã de pescaria, a janela da velha mansão encontrava-se aberta. Era a exata janela do quarto que Carlota acreditava poder vir um dia a ser o seu, e o rio brilhou mais que nos outros dias.

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